Anamnese psicológica: modelos prontos (adulto e infantil)
A anamnese é a primeira fotografia do caso: a entrevista inicial em que você levanta queixa, história e contexto antes de fechar o plano de trabalho. Bem conduzida, poupa meses de terapia às cegas; mal conduzida, vira interrogatório que esfria o vínculo logo na largada. Neste guia você encontra a estrutura em 8 blocos comentada, um modelo de anamnese adulto e um infantil prontos para copiar, os ajustes por abordagem e os erros mais comuns — incluindo o que fazer com a ficha depois de preenchida.
O que é a anamnese — e o que ela não é
Anamnese vem do grego: aná (de volta) + mnesis (memória) — “trazer a lembrança de volta”. Na clínica psicológica, é a entrevista (ou a sequência de entrevistas iniciais) que reconstrói a história da pessoa e da queixa: quando começou, como evoluiu, o que já foi tentado, em que contexto de vida aquilo acontece. É dela que saem as primeiras hipóteses, o rastreio de risco e o desenho do plano terapêutico.
Vale delimitar o que a anamnese não é. Não é o prontuário inteiro: ela é uma parte dele — a Resolução CFP nº 001/2009 exige registro documental de todo atendimento, e a anamnese alimenta justamente a avaliação de demanda; a estrutura completa está no nosso guia do prontuário psicológico. Não é questionário para aplicar item por item, sem escuta. E não é ficha médica: você investiga história, sentido e funcionamento psíquico.
A estrutura em 8 blocos, comentada
Os oito blocos abaixo cobrem a anamnese de adultos — a ordem é sugestão: na sessão real, eles se misturam.
- Identificação: quem é a pessoa — idade, com quem mora, ocupação, escolaridade —, telefone, e-mail e um contato de emergência. Registre também quem encaminhou: busca própria, médico, escola.
- Queixa principal: o motivo da busca nas palavras do paciente, entre aspas: “eu travo em qualquer conversa”. A formulação literal orienta o caso — e a pergunta “por que agora?” costuma render mais do que a queixa em si.
- Histórico da queixa: quando começou, como evoluiu, o que piora e o que alivia. Inclua as tentativas anteriores — terapia, medicação, estratégias próprias — e o que aconteceu com cada uma.
- Saúde e medicações: condições médicas, remédios em uso, acompanhamento psiquiátrico atual ou passado, sono, apetite, álcool e outras substâncias. É aqui que entra o rastreio de risco, perguntado com naturalidade.
- Histórico familiar: com quem cresceu, saúde mental na família, qualidade dos vínculos hoje, eventos marcantes — perdas, separações, violência.
- Rotina, sono e trabalho: a semana real, do despertar ao dormir: carga de trabalho ou estudo, atividade física, lazer, telas. Muita queixa “emocional” mora na rotina.
- Rede de apoio: com quem a pessoa pode contar de verdade — amizades, relacionamento, família estendida, comunidade. Rede fina muda o manejo e o prognóstico.
- Expectativas: o que espera da terapia, o que seria “melhorar” em termos concretos, experiências anteriores com psicólogos e a frequência de sessões que cabe na vida dela.
No atendimento infantil soma-se o bloco de desenvolvimento e escola, respondido pelos responsáveis — detalhado no segundo modelo, logo abaixo.
Modelo de anamnese adulto (para copiar)
O modelo abaixo transforma os blocos em campos prontos. É roteiro de entrevista — não formulário para o paciente preencher sozinho — e a síntese vai depois para o prontuário. Imprima, salve em PDF ou reproduza a estrutura no seu sistema.
Anamnese Psicológica — Adulto
Paciente: ____________________________ · Data de nascimento: ____/____/________ · Data da entrevista: ____/____/________ · Modalidade: ( ) presencial ( ) online
1. Identificação e contexto. Com quem mora, estado civil, filhos, ocupação e escolaridade. Telefone, e-mail e um contato de emergência. Encaminhamento: busca própria, médico, escola, indicação?
2. Queixa principal. “O que traz você aqui?” — registre nas palavras do paciente, entre aspas. E a pergunta que rende: “por que agora?”
3. Histórico da queixa. Quando começou e como evoluiu; situações que pioram e que aliviam; o que já tentou (terapia, medicação, estratégias próprias) e o que aconteceu com cada tentativa.
4. Saúde e medicações. Condições médicas e medicações em uso; acompanhamento psiquiátrico atual ou passado; sono e apetite; álcool e outras substâncias. Pergunte, com naturalidade, sobre pensamentos de morte ou autolesão.
5. Histórico familiar. Com quem cresceu; histórico de saúde mental na família; como são os vínculos hoje; perdas, separações e outros eventos marcantes.
6. Rotina, sono e trabalho. Uma semana típica, do despertar ao dormir; satisfação com trabalho ou estudo; atividade física; que espaço sobrou para lazer.
7. Rede de apoio. “Com quem você pode contar de verdade?” Amizades, relacionamento afetivo, família estendida, comunidade ou religião, se fizer sentido para a pessoa.
8. Expectativas. O que espera da terapia e o que seria “melhorar” em termos concretos; experiências anteriores com psicólogos; frequência de sessões possível.
Modelo de anamnese infantil (respondido pelos responsáveis)
No infantil, quem responde a primeira entrevista são os responsáveis — de preferência sem a criança presente, para falarem à vontade. O foco vai para desenvolvimento, escola e dinâmica familiar; com pais separados, registre desde o início quem detém a guarda e autoriza o atendimento.
Anamnese Psicológica — Infantil
Criança/adolescente: ____________________________ · Idade: ________ · Escola/ano: ________________ · Respondido por: ____________________________
1. Identificação e família. Com quem a criança mora; irmãos e idades; guarda e autorização do atendimento, quando os responsáveis são separados; quem cuida no dia a dia.
2. Queixa e encaminhamento. O que motivou a busca, nas palavras dos responsáveis: “ele não para quieto na escola”. Quem se queixa — família, escola, pediatra? A criança sabe por que veio?
3. Gestação e desenvolvimento. Como foram a gestação e o parto; marcos do desenvolvimento (sustentar a cabeça, andar, falar, desfralde); alguma preocupação já investigada antes?
4. Saúde. Doenças, alergias e medicações; acompanhamentos em curso (pediatra, neurologia, fonoaudiologia); sono (onde e como dorme, pesadelos); alimentação e seletividade.
5. Escola. Adaptação e trocas de escola; desempenho e queixas da equipe; relação com colegas e professores; existe relatório escolar disponível?
6. Dinâmica familiar. Rotina da casa e combinados; como funcionam limites e birras; tempo e conteúdo de telas; como os adultos reagem aos comportamentos da queixa.
7. Socialização e brincar. Do que e com quem brinca; brincadeira simbólica; atividades fora da escola; como se comporta em festas e ambientes novos.
8. Expectativas dos responsáveis. O que esperam do processo; o que já tentaram; disponibilidade para orientação parental — no infantil, os adultos fazem parte do tratamento.
Depois de preencher: a anamnese não fica solta. A síntese entra na avaliação de demanda do prontuário — escrita de primeira, logo após a sessão — e a ficha, guardada sob sigilo. Modelo respondido é dado sensível.
Como adaptar à sua abordagem
O roteiro é o mesmo; muda a ênfase:
- TCC: anamnese mais estruturada. Para cada situação da queixa, mapeie pensamento, emoção e comportamento — esse material vira a base da conceitualização cognitiva do caso.
- Psicodinâmica: o roteiro pesa menos que a escuta. Como a pessoa conta a própria história — lacunas, repetições, afetos — é dado clínico tão importante quanto o conteúdo contado.
- Sistêmica: a unidade de análise é a rede. Amplie o bloco familiar, mapeie alianças e o momento do ciclo de vida da família — um genograma simples ajuda muito.
Nenhuma versão é “a certa”: o modelo serve ao seu manejo, não o contrário.
Os 4 erros que mais atrapalham
- Interrogatório de 90 minutos. A primeira sessão também é acolhimento: quem sai dela “preenchido como formulário” raramente volta. Distribua os blocos em 2 ou 3 encontros.
- Copiar ficha médica. Revisão de sistemas e listas de sintomas sem função clínica não são anamnese psicológica. Aqui se investigam sentido, contexto e relação — não só o sintoma.
- Não levar para o prontuário. Anamnese que não vira registro é trabalho perdido: a síntese alimenta a avaliação de demanda. Escreva no mesmo dia — depois de semanas, é reconstrução, não registro.
- Guardar a ficha solta, sem sigilo. Papel em gaveta destrancada ou arquivo na área de trabalho é violação de sigilo e incidente de LGPD ao mesmo tempo: guarde num armário com chave ou num banco de dados protegido, com acesso restrito — o passo a passo está no nosso checklist de LGPD para psicólogos. E, no prontuário digital, valem os prazos de guarda da Lei nº 13.787/2018.
Anamnese guardada no lugar certo
Na Nerela, a ficha do paciente e as anotações de sessão ficam criptografadas e organizadas num só histórico — ao lado da agenda, dos lembretes por WhatsApp e dos relatórios. Dados guardados na União Europeia.
📄 Baixe os modelos em Word e edite no seu computador: anamnese de adulto (.docx) e anamnese infantil (.docx) — gratuitos, prontos para adaptar à sua prática.
Perguntas frequentes
A anamnese é obrigatória?+
Nenhuma resolução do CFP exige um documento chamado “anamnese”. O que a Resolução CFP nº 001/2009 exige é o prontuário — e ele deve conter a avaliação de demanda, com queixa, objetivos e plano inicial de trabalho. A anamnese é simplesmente a forma mais organizada de produzir essa parte: quem faz uma boa anamnese já cumpre o requisito sem esforço extra.
Quantas sessões leva uma anamnese?+
Em geral, de 1 a 3 sessões com adultos e de 2 a 4 no infantil — em que a primeira costuma ser só com os responsáveis. Não force o roteiro inteiro num único encontro: colher história com calma também é intervenção, e informação nova continua aparecendo depois. A anamnese termina; a escuta dela, não.
Posso usar a mesma anamnese para todos os pacientes?+
Como base, sim — é para isso que serve o modelo. Mas trate o roteiro como guia, não como questionário fechado: ajuste os blocos conforme idade, demanda e abordagem (um caso de luto não se investiga como uma queixa escolar). O que não muda nunca: registrar a síntese no prontuário e guardar o documento sob sigilo.
Anamnese e contrato terapêutico são a mesma coisa?+
Não. A anamnese é um instrumento clínico: levanta história e contexto para orientar o plano de trabalho. O contrato (ou termo) organiza os combinados administrativos e éticos — valores, faltas, atrasos, sigilo, LGPD. São documentos separados, geralmente apresentados na mesma fase inicial. Temos um modelo de contrato de prestação de serviços psicológicos pronto para adaptar.
Conteúdo informativo — os modelos são pontos de partida e não substituem a orientação do seu Conselho Regional de Psicologia nem a supervisão clínica.
A Nerela é o software de gestão feito para psicólogos: agenda, agendamento online, anotações de sessão, lembretes por WhatsApp e relatórios — dados na União Europeia. Estamos chegando ao Brasil: entre na lista de fundadores e garanta as condições de lançamento.
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