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NR-1 · riscos psicossociais

NR-1 e riscos psicossociais: a nova frente de trabalho do psicólogo

Por Nerela · Publicado em 3 de agosto de 2026 · 9 min de leitura

Desde 26 de maio de 2026, toda empresa com funcionários CLT pode ser autuada se não gerenciar os riscos psicossociais do trabalho — estresse, assédio, sobrecarga, jornadas exaustivas. A regra existe desde 2024, mas o período educativo acabou: agora a fiscalização multa. Quase todo o conteúdo publicado sobre a NR-1 fala com o RH; este guia fala com você, psicóloga ou psicólogo, que pode ser a pessoa contratada para resolver o problema. Você vai ver o que a norma exige em linguagem de consultório, o que entra numa avaliação psicossocial, quanto cobrar, como montar a proposta — e onde ficam os limites éticos.

O que a NR-1 passou a exigir, traduzido para psicólogo

A NR-1 é a norma "guarda-chuva" da segurança e saúde no trabalho: ela obriga todo empregador a manter um Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), materializado num documento chamado PGR — Programa de Gerenciamento de Riscos. Até 2024, esse programa olhava para riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes. A Portaria MTE nº 1.419/2024 acrescentou os riscos psicossociais a essa lista — e mudou o jogo.

Na prática, cada empresa precisa identificar os fatores psicossociais presentes no trabalho (metas abusivas, jornada, assédio, falta de autonomia, relações conflituosas), avaliar e classificar esses riscos, registrar tudo no inventário do PGR e agir sobre o que for relevante, com plano de ação e acompanhamento. Não é palestra de bem-estar: é diagnóstico documentado e gestão contínua.

O cronograma importa para o seu discurso comercial: a Portaria MTE nº 765/2025 concedeu um ano de caráter educativo, em que o auditor orientava em vez de punir. Esse prazo terminou e, sem nova prorrogação, a fiscalização punitiva começou em 26 de maio de 2026. E a obrigação alcança todo empregador com vínculo CLT, sem exceção por porte ou setor — a padaria de oito funcionários também.

Por que as empresas vão procurar você agora

Uma grande empresa tem SESMT, consultoria de SST e às vezes psicólogo organizacional na casa. A pequena e a média não têm nada disso — e são milhões de CNPJs que, de uma vez, precisam de alguém capaz de avaliar fatores psicossociais com método. O técnico de segurança que monta o PGR sabe medir ruído e ergonomia; avaliação psicossocial não é o instrumento dele. É o seu.

E há um segundo motor além da multa: o custo real do adoecimento. Levantamento da ANAMT com dados oficiais do INSS registrou 546.254 afastamentos por transtornos mentais em 2025 — recorde da série e alta de 15,7% sobre 2024, com a ansiedade (166.489 casos) e a depressão (126.608) na frente. Cada afastamento é vaga descoberta, produtividade perdida e passivo trabalhista potencial. Quando você apresenta esses números numa reunião, o dono da empresa entende de primeira por que precisa agir.

Gráfico de barras: afastamentos concedidos pelo INSS por transtornos mentais — cerca de 283 mil em 2023, cerca de 472 mil em 2024 e 546.254 em 2025, recorde da série e alta de 15,7% em um ano. 0 200 mil 400 mil 600 mil ≈ 283 mil ≈ 472 mil 546.254 2023 2024 2025 +15,7% em 1 ano
Afastamentos previdenciários por transtornos mentais e comportamentais, 2023–2025. Fonte: levantamento ANAMT com dados oficiais do INSS (valores de 2023 e 2024 aproximados; 2025 é recorde da série).

Um detalhe estratégico: a norma não obriga a empresa a contratar psicólogo — ela obriga a fazer a gestão do risco. Mas quando a pergunta é "quem sabe avaliar fator psicossocial com instrumento validado, entrevista e leitura clínica?", o perfil natural é o seu, como reconhecem as orientações técnicas do CRP-MG sobre a NR-1. Quem chegar primeiro nas empresas da sua cidade define o padrão — e o preço.

O que inclui uma avaliação psicossocial

Não existe um rito único, mas os projetos sérios seguem cinco etapas:

  1. Mapeamento inicial. Reunião com a direção e o RH (quando existe) para entender setores, funções, turnos, histórico de afastamentos e conflitos. Aqui você define a amostra e o cronograma.
  2. Coleta com instrumentos. Aplicação de questionários de fatores psicossociais validados para o contexto brasileiro, em geral anônimos e por setor — complementados por entrevistas individuais ou grupos focais quando o porte permite.
  3. Análise por setor e função. O dado bruto vira classificação de risco: quais fatores aparecem, com que intensidade, em quais áreas. Sobrecarga no comercial e assédio na produção são problemas diferentes, com respostas diferentes.
  4. Relatório com plano de ação. O entregável que a empresa anexa ao PGR: metodologia, resultados agregados, classificação dos riscos e recomendações priorizadas com prazos. Como documento psicológico, ele segue a Resolução CFP nº 06/2019 — estrutura, fundamentação e linguagem estão no nosso guia dos documentos psicológicos.
  5. Reavaliação periódica. O PGR é vivo: o acompanhamento das ações e a reaplicação periódica dos instrumentos são a sua receita recorrente natural.

Quanto cobrar: dimensione pelo número de funcionários

Não há tabela obrigatória, e os valores abaixo são estimativas de mercado — variam por região, setor, grau de risco e profundidade do escopo. A lógica que funciona é precificar por projeto, dimensionado pelo número de trabalhadores:

PorteEscopo típicoFaixa estimada
Até 19 funcionáriosQuestionário + entrevistas-chave + relatório com plano de açãoR$ 2.500–5.000 por projeto
20–49 funcionáriosColeta por setor, grupos focais, relatório e apresentação à direçãoR$ 5.000–12.000 por projeto
50–199 funcionáriosAmostragem estruturada, análise por função, devolutivas por áreaR$ 10.000–25.000 ou R$ 60–150 por trabalhador
AcompanhamentoMonitoramento do plano de ação + reavaliação periódicaR$ 800–2.500 por mês

A conta que convence: para uma empresa de 30 funcionários, um projeto de R$ 8.000 custa menos do que um único afastamento longo por ansiedade — e muito menos do que uma autuação somada a um processo trabalhista por adoecimento.

Roteiro de proposta comercial em 5 passos

  1. Liste 10 empresas alcançáveis. Comece pelo seu raio de contato: contadores parceiros, pacientes empresários (sem misturar papéis — a abordagem vai para a empresa, nunca dentro da sessão), sindicatos patronais e associações comerciais da cidade.
  2. Abra com a dor, não com a norma. Um e-mail curto ou mensagem: "A fiscalização dos riscos psicossociais da NR-1 começou em maio. Sou psicóloga(o) e conduzo a avaliação que o PGR da sua empresa precisa anexar. Posso explicar em 20 minutos?".
  3. Ofereça um diagnóstico de 30 minutos. Sem custo: você entende o porte, o setor e o que já existe de SST, e sai com os dados para dimensionar a proposta.
  4. Envie proposta com escopo fechado. Etapas, cronograma, entregáveis (relatório para o PGR + plano de ação + apresentação à direção) e preço fechado. Escopo aberto assusta; pacote fechado aprova.
  5. Feche com continuidade. Inclua a reavaliação periódica e o monitoramento como mensalidade. E plante a semente do futuro: a Lei nº 14.831/2024 criou o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental — ainda sem regulamentação, mas o programa que você estruturar deixa a empresa pronta para o selo.

Limites éticos: o que a avaliação não é

Três fronteiras protegem você e o trabalho:

Consultório organizado enquanto você abre a frente B2B

Na Nerela, agenda, anotações de sessão criptografadas, lembretes por WhatsApp e relatórios ficam num só lugar — para o consultório continuar rodando enquanto você atende empresas. Dados guardados na União Europeia.

Perguntas frequentes

Preciso ser especialista em psicologia organizacional?+

Não há exigência legal de título de especialista: a NR-1 não define qual profissional conduz a avaliação. O que vale é o Código de Ética — atuar dentro dos limites da própria competência. Na prática: se você domina avaliação psicológica e entrevista, já tem a base; complete com capacitação em saúde do trabalhador e em instrumentos de fatores psicossociais, e comece por empresas pequenas antes de assumir projetos grandes.

Quanto cobrar por uma avaliação psicossocial?+

Não existe tabela obrigatória. O mercado costuma dimensionar pelo número de trabalhadores: como estimativa de mercado, projetos completos partem de R$ 2.500–5.000 em microempresas e chegam a dezenas de milhares em empresas maiores, com faixas de R$ 60–150 por trabalhador em avaliações coletivas — sempre variando por região, setor e escopo. Some uma mensalidade de acompanhamento para transformar o projeto em receita recorrente.

Empresa pequena também precisa cumprir a NR-1?+

Sim. A obrigação de gerenciar riscos ocupacionais — agora incluindo os psicossociais — alcança todo empregador com funcionários CLT, sem exceção por porte ou setor. Existem simplificações documentais para MEI e pequenas empresas de baixo risco, mas a identificação e o tratamento dos riscos presentes no trabalho continuam exigíveis. É justamente nas pequenas, sem estrutura interna, que o psicólogo externo é mais necessário.

E o certificado da Lei 14.831/2024?+

A Lei nº 14.831/2024 criou o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental, um selo federal para empresas com programas de promoção de saúde mental e bem-estar. A regulamentação completa ainda não saiu, então ninguém consegue emiti-lo por enquanto — mas ele já funciona como argumento de venda: o programa que você estruturar para a NR-1 deixa a empresa pronta para pedir o selo quando a certificação for regulamentada.

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